FG Empreendimentos na capa da The President

Um autêntico espírito empreendedor pode começar da forma mais simples possível: aprendendo a manejar uma tesoura, um pente e uma navalha – e, claro, atendendo bem a quem confiou sua cabeça e seu rosto a ser escanhoado a um garoto ainda imberbe. Aos 14 anos, depois de ter perdido a visão de um olho aos 7 em um acidente, Francisco Graciola, terceiro entre os 12 irmãos, foi o primeiro da família a abandonar o trabalho na roça. Queria morar na cidade, crescer na vida. Por isso, aceitara com muito gosto a oferta de um tio barbeiro, da pequena Gaspar, que precisava de um assistente. Em troca de aprender o ofício e trabalhar no estabelecimento, teria cama e comida.

Dois anos depois, Francisco partiu para Blumenau, a maior cidade da região, onde montaria seu primeiro negócio. Uma barbearia, claro, que ficava colada a uma lanchonete, ambas do mesmo proprietário. Para conquistar clientes, o jovem empresário inovava: “Eu botava uma placa na calçada: ‘Corte o cabelo e ganhe a barba de graça’”, relembra o atual presidente do Conselho Consultivo da FG Empreendimentos, na sede do grupo, em Balneário Camboriú.

Nesta entrevista, concedida ao lado do filho Jean Graciola, diretor-presidente da holding FG Brazil e cofundador da FG Empreendimentos, o empresário Francisco Graciola relembra sua trajetória e a forma como foi aprendendo a construir edifícios cada vez mais altos e arrojados. E seu filho explica os motivos de a empresa ter expandido suas operações fixando presença em São Paulo. Hoje, 7% de seus clientes já são oriundos desse importante centro econômico do país. Até porque fica a pouco mais de uma hora de avião.

Ao centralizar suas construções em Balneário Camboriú, a FG Empreendimentos visa atender quem busca um destino com segurança e qualidade de vida. Trata-se de um paraíso do litoral catarinense. Adquirir um imóvel ali é recomendável até mesmo como investimento, pois o lugar desponta entre os cinco mais valorizados metros quadrados do país. Jean reforça ainda que a empresa estuda e investe em todos os meios para que os que quiserem conhecer Balneário Camboriú possam “experienciar” e viver o estilo da cidade que vem sendo chamada de “a Dubai brasileira” – com a vantagem de ser bem menos quente.

THE PRESIDENT _Como foi o começo dos negócios?

Francisco Graciola – Éramos 12 irmãos e trabalhávamos juntos na roça, com criação de galinha, bode e gado de leite. Dos 7 para 8 anos, tive um acidente, perdi uma das vistas e aquilo me chamou a atenção de que eu gostaria muito de sair do interior e vir para a cidade. E aí, aos 13 para 14 anos, surgiu a oportunidade na cidade de Gaspar, que na época era pequenininha, e teve um tio que quis me ensinar a cortar cabelo. Com muita vontade de aprender e ter o meu próprio negocinho, depois de dois anos eu trabalhei mais um ano com ele, aí já comissionado. Então surgiu uma oportunidade em Blumenau. Era uma salinha. Abri minha barbearia.

 

Em que época?

FG – Final dos anos 1970. Eu botava uma plaquinha na calçada: “Corte o cabelo e ganhe a barba. Corte o cabelo e ganhe o cabelo do filho de graça”, e conseguia atrair muitos clientes. Do lado da barbearia, existia uma lanchonetezinha. O proprietário, que tinha alugado o espaço para a barbearia, viu que tinha potencial para crescer, e propôs que eu assumisse também a lanchonete. Me fez uma proposta para pagar em 36 vezes. Acabei comprando. Aí eu olhei para os 11 irmãos que estavam lá no sítio em Gaspar, e fui trazendo. Primeiro uma irmã, depois mais um irmão, em seguida veio a Ângela, mãe do Jean. Veio ajudar na lanchonete. E como na barbearia nem sempre estava com clientes, nas horas de folga nós fazíamos costura. Isso porque abrimos a barbearia perto da indústria Hering, e aí eles traziam aquelas camisas de malhas que a gente, nas horas de folga, corrigia a gola, a manga, pregava botão. Assim surgiram a Barbearia do Chico e, depois, a Barbearia, Lanchonete e Alfaiataria do Chico. Foram aparecendo outras lanchonetes que a gente passou a administrar também. E como tanto eu quanto a Ângela tínhamos muitos irmãos e irmãs, fomos trazendo os outros para trabalhar nas novas lanchonetes. Chegamos a ter 15.

 

E quando a construção civil entra na sua vida?

FG – A gente tinha um relacionamento bom na cidade, e aí apareciam muitos terrenos para comprar. E um desses terrenos eu achei que serviria para erguer um prédio de quatro andares. Então desenhamos e construímos em 1983, logo quando aconteceram as enchentes em Blumenau. Ficou com quatro pisos, sendo 12 apartamentos e três salas comerciais. E gostei daquilo porque, à medida que ia construindo, eu tinha vontade de aumentar um andar. Olhava para qualquer sobrado, para qualquer casa, para qualquer terreno pensando em empreender.

 

Como ergueu esse primeiro prédio? Já conhecia engenheiros, arquitetos, mestres de obra?

FG – Eu ia em qualquer obra e fazia visitação, queria conhecer como funcionava a construção civil. Para esse primeiro prédio nós contratamos um arquiteto e um engenheiro. E conseguimos fazer o desenho do prédio e estruturá-lo para subir. Jean Graciola – O pai ia de Blumenau para São Paulo numa caçamba de caminhão para buscar material. O dinheiro que sobrava da lanchonete era investido nisso. FG – Sim, comprava em São Paulo dos atacadistas de material de construção. E como a gente tinha parente na cidade, íamos com o caminhão de frete daqui para lá. Foi um período bacana, com as primeiras construções e, em paralelo, tocando as lanchonetes. E como havia sempre muitos corretores envolvidos nas vendas, acabei conhecendo Balneário Camboriú. Saía de Blumenau domingo de manhã, aí eu já tinha o Jean, meu primeiro filho. Ele, ainda criança, já se envolvia. No domingo cedinho, a gente botava a família num Fiat 147 e íamos de Blumenau a Balneário, cobrindo 80 quilômetros. Parávamos para visitar as obras em todo o caminho.

 

Foi nesse período, nos anos 1980, que o Balneário Camboriú começou a chamar mais a atenção de investidores?

FG – Sim. Mas ainda eram famílias de origem do próprio Balneário Camboriú. E prédios já maiores do que os de Blumenau. Até que um dia um corretor muito amigo veio oferecer um terreno em Balneário, na avenida litorânea. Isso me incentivou, devido à vontade que eu tinha em desenvolver construções maiores. Trocamos o terreno dele por dois apartamentos em Blumenau. E projetamos o primeiro prédio em Balneário com 14 andares, já na avenida Atlântica. Foi em meados dos anos 1990. JG – Balneário Camboriú ainda não era tão valorizado na época. O pai já antevia o futuro. Na época, adquiriu uma construtora em Jaraguá do Sul, a Construsol. Abrimos mais uma frente. A coisa começou a se fortalecer.

 

E nesse momento você passou a trabalhar com o seu pai, Jean?

JG – Em agosto de 2001 foi criada uma administradora de bens chamada FG. Surgiu por uma questão de blindagem do patrimônio e, também, para cuidar da administração dos imóveis que já tínhamos. O pai estava em Balneário. E eu em Jaraguá do Sul tocando a construtora lá. Ele me chamou. Seguramos as novas construções em Blumenau e Jaraguá do Sul, e passamos a focar principalmente Balneário Camboriú.

 

Vocês perceberam que a cidade teria ainda maior demanda?

FG – Sim. Fomos criando força na marca e adquirindo terrenos bem localizados. Chegava a hora de circular pelo mundo para buscar mais tecnologia, novas soluções de engenharia. Fomos para Dubai, Cidade do Panamá, Singapura, Nova York e outros países e cidades que têm as melhores tecnologias para erguer prédios altos. É que houve uma transformação em Balneário na dobrada dos anos 1990 para 2000. O que aconteceu? Trouxemos para Balneário a ideia de que cada condomínio deveria ter o seu espaço de lazer, de resort estilo home club. Piscina aquecida, academia, área de crianças, áreas para encontros de família. Foi uma novidade para a região.

 

Como se deu esse crescimento de Balneário Camboriú, em tão pouco tempo?

FG – A cidade está estrategicamente bem localizada em relação ao Sul e Sudeste do país e tem uma ótima oferta em termos de aeroportos e rodovias. Balneário contou com empresários e gestores de visão. Eles trabalharam para que a cidade crescesse em qualidade, em recursos. Isso embasou ainda mais os empreendimentos, agregou muito. Veja que outros lugares da região querem seguir o modelo. Itajaí, por exemplo, onde fica a Praia Brava. Ocorreu também com Itapema. Isso foi nos anos 2000, quando a coisa de fato decolou. JG – Vem gente de todo o Brasil para cá. Por quê? Por causa da qualidade de vida, porque realmente é uma cidade dotada de ótima infraestrutura. E tem praias lindíssimas aqui do lado, praias com Selo Azul de limpeza da água, com poluição zero. Balneário Camboriú tem muitos diferenciais. Somos a quarta cidade mais segura do país. Somos a quarta cidade em que o metro quadrado mais se valoriza no país. A maior roda-gigante estaiada do Brasil está aqui. A qualquer hora você encontra restaurantes, mercados e farmácias abertos. Pessoas que têm um poder aquisitivo bom acabam trazendo suas famílias para cá porque a qualidade de vida aqui é diferenciada.

Vocês ergueram em uma cidade de tamanho médio seis dos dez prédios mais elevados do país. Como fazem para continuar trazendo a tecnologia necessária a esses empreendimentos?

JG A partir de 2007, começamos a buscar as tecnologias lá fora. Já havíamos construído prédios de até 30 andares em Balneário. Em 2008, adquirimos um terreno de 5 mil metros quadrados. Dava para construir três prédios de 20 andares. Daí, o pai, com essa visão que ele tem, falou: “Não. Em vez de erguer três torres de 20 andares, vamos construir uma de 60”. Por quê? Se você erguer três torres em uma área de 5 mil metros, vai usar 50% do terreno só para elas. Se sobe uma torre só, usa-se para isso apenas 20% do terreno. Dessa maneira, sobra uma grande área para oferecer opções de lazer. Então, a gente foi atrás para construir o residencial Infinity Coast, que tem 66 pavimentos habitáveis e equivale a um prédio de 76 pavimentos. São 234 metros de altura. Viajamos umas seis vezes para o Panamá, que tem bastante tecnologia nesse sentido, e, também, para Dubai e Hong Kong. E fechamos parcerias com companhias internacionais. As maiores empresas do mundo da área de cálculo estrutural e da área arquitetônica, como a RWDI (Canadá), a BRE (Inglaterra) e WSP (EUA), tornaram-se nossas parceiras. São as mesmas que desenvolveram os estudos para arranha céus como o Petronas Towers em Kuala Lumpur, na Malásia, e o Central Park Tower, em Nova York. Para galgarmos outros patamares, tivemos de buscar a informação, o know-how de construção de arranha-céus.

 

Vocês farão um ainda mais alto?

JG – Sim. Em 2022, vamos entregar o One Tower, de 70 pavimentos habitáveis e 84 no total. Quase 300 metros de altura. Será o edifício mais alto do Brasil e o segundo mais alto da América do Sul.

 

É este novo empreendimento que está trazendo a FG para São Paulo?

JG – São os projetos futuros. Temos cinco empreendimentos que ultrapassam os 60 andares, todos extremamente bem localizados. Por que São Paulo? A cidade tem um perfil para novos compradores. A ideia foi montar um escritório que pudesse fazer o treinamento das imobiliárias e as parcerias em São Paulo, para mostrar o que é Balneário Camboriú. Temos apartamentos que chamamos de ‘apartamentos-sensações’. São cinco ou seis unidades decoradas, que deixamos para esses clientes virem para cá passar quatro ou cinco dias, ou um fim de semana, e terem a sensação do que é morar em Balneário Camboriú. Colocamos um barco de 60 pés à disposição do cliente. Idem para um helicóptero e serviço de consièrge. O cliente se sente como se estivesse morando aqui. Nós o levamos para conhecer a região por terra, por ar e mar. Existem três marinas aqui em Balneário Camboriú e região, com espaço para mais de 1.500 barcos. O mercado náutico aqui é muito forte.

A FG Empreendimentos vem registrando um crescimento acelerado nesses tempos de pandemia. Como isso pode ocorrer em um momento de retração econômica?

JG – O mercado vinha muito forte em 2019. O setor da construção civil estava aquecido, a gente estava vendendo super bem. Veio a pandemia, ali por março e abril do ano passado, e foi aquele susto. O que fizemos? Cortamos todos os custos desnecessários, seguramos os lançamentos e focamos em todas as obras que já estavam em construção, evitando a todo custo demitir. E tivemos êxito. A partir de maio e junho, percebemos que o mercado começou a voltar, e muito forte. Então repensamos os projetos e os lançamentos. O mês de outubro do ano passado foi o segundo melhor da companhia nesses 20 anos. E fechamos o resultado do primeiro semestre de 2021 com um aumento de 74% no valor geral de vendas (VGV), em relação ao mesmo período de 2020. Ainda neste mesmo período, a companhia viu seu lucro aumentar 40%, atingindo a margem de 35% de lucro líquido.

 

O que ajudou?

FG – Primeiro, a região, pela questão da qualidade de vida e tudo mais. Depois, os diferenciais dos nossos projetos, a valorização que oferecem. Também percebemos que, com a pandemia, as famílias se juntaram muito mais para pensar um pouco mais nelas mesmas. Então, como o Balneário Camboriú vende muito a qualidade de vida, o pessoal começou a vir para cá. Estão vindo para morar ou para investir. Com a taxa Selic baixíssima, não se torna viável investir em bancos e outros investimentos quando a construção civil tem o valor da “cota anual” em torno de 20% para mais, não é? Acho que foi um conjunto de situações que propiciaram que o mercado da construção civil, principalmente aqui nessa região, continuasse em um embalo excelente.

Fonte: Revista The President, por Ricardo Prado.

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